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INTERLINGUA PORTUGESE ROMANICA


O guardador de rebanhos (Original em português)


ALBERTO CAEIRO


SOU UM GUARDADOR DE REBANHOS.
O REBANHO É OS MEUS PENSAMENTOS
E OS MEUS PENSAMENTOS SÃO TODOS SENSAÇÕES.
PENSO COM OS OLHOS E COM OS OUVIDOS
E COM AS MÃOS E OS PÉS
E COM O NARIZ E A BOCA.

PENSAR UMA FLOR É VÊ-LA E CHEIRÁ-LA
E COMER UM FRUTO É SABER-LHE O SENTIDO.

POR ISSO QUANDO NUM DIA DE CALOR
ME SINTO TRISTE DE GOZÁ-LO TANTO
E ME DEITO AO COMPRIDO NA ERVA,
E FECHO OS OLHOS QUENTES,
SINTO TODO O MEU CORPO DEITADO NA REALIDADE,
SEI A VERDADE E SOU FELIZ.



Nesse poema simples e claro, Alberto Caeiro nos expõe sua postura em relação à realidade que o circunda: seu conhecimento da Natureza e do Mundo é obtido por meio dos sentidos; seu pensamento é justamente o conteúdo de suas sensações. Assim, viver é simplesmente sentir: a felicidade consiste em “deitar-se ao comprido na relva”, a fim de sentir o próprio “corpo deitado na realidade”.
Fernando Pessoa diz ter colocado em Alberto Caeiro “todo o seu poder de despersonalização dramática”. Se você considerar que a atividade mental de Pessoa foi sempre lúcida e racional, poderá perceber o alcance dessa afirmação. Afinal, deve ter sido extremamente difícil para um homem do nosso tempo, comprimido por séculos de racionalismo, criar e sustentar um poeta cuja visão de mundo não era visão de mundo, e sim sensação de mundo.
A obra poética de Alberto Caeiro é formada por três conjuntos de poemas, agrupados sob as denominações de “O guardador de rebanhos”, “O pastor amoroso” e “Poemas inconjuntos”. É nos poemas do primeiro conjunto, “O guardador de rebanhos”, que se sente mais claramente a “sensação do mundo” de Caeiro.



Alberto Caeiro da Silva, um dos três mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa – os outros dois são Álvaro de Campos e Ricardo Reis –, nasceu em Lisboa, a 16 de abril de 1889, e morreu em 1915, na mesma cidade, tuberculoso. Órfão de pai e mãe, viveu com uma tia, no campo. Só teve instrução primária e, por isso mesmo, escrevia mal o português.
Esses traços biográficos ajustam-se perfeitamente à poesia de Caeiro e, principalmente, à sua visão de mundo. Poeta bucólico, vive em contato direto com a Natureza; daí sua lógica ser a mesma da ordem natural. Apresenta um “conceito direto das coisas”, um “objetivismo absoluto”, pois o mundo é aquilo que Caeiro sente: “Os meus pensamentos são todos sensações”.
Outra característica fundamental de Caeiro é o seu paganismo. E quando Fernando Pessoa afirma que Caeiro é o seu mestre, é apenas parte de uma verdade: Caeiro era mestre de Pessoa e de todos os outros heterônimos.

[Extraído de Como ler Fernando Pessoa, de José de Nicola Ulisses Infante – Editora Scipione, 1988].